7 de maio de 2017

A casa.


 Lilian Lovisi

Na tal prisão
o sol nasce redondo,
desliza
entre grades de galhos,
ilumina a solitária
dos livros,
os passarinhos vigiam dia,
noite não,
a prisão,
se é livre
para ir e vir
mas prisioneiro
enxerga redoma
em copas de árvores,
o ardil da fronteira
do mundo lá fora,
o mundo lá fora
não existe na tal prisão.
Cds, vinis enfileirados
prontos para
banhos de sol,
banhos de sol,
sim,
de hora em hora.
Banhos de lua cheia
como penalidade,
a de se ficar imaginando,
pouco,
é bobagem,
a tortura de imaginar
de mãos algemadas para trás
sem tocar
em teclas
lápis
caneta
a não ser que seja
para marcar na parede
mais um traço
do dia
que se vai ligeiro,
o tempo e o vento
não se demoram na tal prisão,
carcereiros latem
alguns piam
outros cantam,
a beleza é severa
na sua escravatura.
Quantos anos de prisão?
Sei lá eu,
são tantos,
perde-se a conta
sem indulto de dia das mães
Natal
Finados,
é segurança máxima,
mas pega celular.
E o pessoal dos direitos desumanos
a perguntar.
Qual a sua culpa?
Imaginar demais?
Imaginar a mais?
Te ajudo a fugir de tal prisão
Toma aqui
Todo este calhamaço de números
estatísticas de agressões
corrupções
más intenções
Toma aqui
Este jornal com manchetes
da Síria,
da Coreia do Norte,
dos imigrantes no mar
do terrorismo a fragilizar,
do Rio de Janeiro com suas balas
que não são de leite.
Toma aqui as manchetes
com as mães do mundo inteiro
a chorar pela partida dos filhos
imposta
por
fuzis
morteiros
preconceitos
xenofobias
homofobias
quaisquer descriminações.
O pessoal dos direitos desumanos
apontam a saída
para um túnel escuro
pressionam, agora!
Vai! Segura este Lexapró
calibre 1000mg automático,
a gente dá cobertura,
ansiolíticos, chás de camomila
ervas das melhores benzedeiras,
a gente ainda repassa
toda manchete de jornal.

Loucura pra lá
Loucura pra cá
Onde estará mesmo a dita?
Prisioneiro diz que não.
O que ele quer
é fugir sempre
para a tal prisão.

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