26 de junho de 2017

borboletas azuis


Lilian Lovisi

Quando éramos play
e não pause
o mundo se movia em fast foward
as emoções aconteciam quadro-a-quadro
e o choro a gente pulava simplesmente,
deixava correr e pulava.
Não reclamávamos muito
e quando sim
deixávamos as palavras correrem soltas
meio igual ao choro
era um email daqui
de lá
e a vida seguia
sem ditar os rumos
por nosso cérebro tão ávido
de direções abstratas.
Eramos borboletas de todas as cores
não apenas azuis.
Na verdade
talvez você nunca percebeu
laranja era eu
tão laranja que
ofuscava seus olhos
com aquela luz como o sol
e os seus olhos tão azuis
raramente para o verde
só conseguia enxergar a ponta das minhas asas
estas sim,
com listras azuis.
seus olhos enxergavam o igual
não porque você fosse obtusa
pelo contrário,
você era aberta demais
enxergavam assim por comodidade da luz
sabe lentes ray ban?
tipo isso
escrever tipo isso
tipo assim
'num pretenso poema que só tem a forma
e não o conteúdo
ainda dirigido a dona
de todos os poemas e rendas?
ousadia
sempre fui assim
bem sabe tu
ele
e eu.


7 de maio de 2017

A casa.


 Lilian Lovisi

Na tal prisão
o sol nasce redondo,
desliza
entre grades de galhos,
ilumina a solitária
dos livros,
os passarinhos vigiam dia,
noite não,
a prisão,
se é livre
para ir e vir
mas prisioneiro
enxerga redoma
em copas de árvores,
o ardil da fronteira
do mundo lá fora,
o mundo lá fora
não existe na tal prisão.
Cds, vinis enfileirados
prontos para
banhos de sol,
banhos de sol,
sim,
de hora em hora.
Banhos de lua cheia
como penalidade,
a de se ficar imaginando,
pouco,
é bobagem,
a tortura de imaginar
de mãos algemadas para trás
sem tocar
em teclas
lápis
caneta
a não ser que seja
para marcar na parede
mais um traço
do dia
que se vai ligeiro,
o tempo e o vento
não se demoram na tal prisão,
carcereiros latem
alguns piam
outros cantam,
a beleza é severa
na sua escravatura.
Quantos anos de prisão?
Sei lá eu,
são tantos,
perde-se a conta
sem indulto de dia das mães
Natal
Finados,
é segurança máxima,
mas pega celular.
E o pessoal dos direitos desumanos
a perguntar.
Qual a sua culpa?
Imaginar demais?
Imaginar a mais?
Te ajudo a fugir de tal prisão
Toma aqui
Todo este calhamaço de números
estatísticas de agressões
corrupções
más intenções
Toma aqui
Este jornal com manchetes
da Síria,
da Coreia do Norte,
dos imigrantes no mar
do terrorismo a fragilizar,
do Rio de Janeiro com suas balas
que não são de leite.
Toma aqui as manchetes
com as mães do mundo inteiro
a chorar pela partida dos filhos
imposta
por
fuzis
morteiros
preconceitos
xenofobias
homofobias
quaisquer descriminações.
O pessoal dos direitos desumanos
apontam a saída
para um túnel escuro
pressionam, agora!
Vai! Segura este Lexapró
calibre 1000mg automático,
a gente dá cobertura,
ansiolíticos, chás de camomila
ervas das melhores benzedeiras,
a gente ainda repassa
toda manchete de jornal.

Loucura pra lá
Loucura pra cá
Onde estará mesmo a dita?
Prisioneiro diz que não.
O que ele quer
é fugir sempre
para a tal prisão.

5 de maio de 2017

sobre o que não tem sobre




 Lilian Lovisi

A tecla do computador ou do piano de cauda é a mesma. 
Por que um piano de cauda? 
Porque a solidão tem cauda.

É como seu eu fosse uma palavra qualquer destacada com marcador amarelo no meio de tantas outras palavras e frases e aquela solidão ali em amarelo enclausurada dentro do amarelo que parece tão bonito e forte mas ninguém percebe as grades a formar a cela. 

E aí não importa qual palavra eu seja. Qualquer palavra perde seu sentido se você não consegue expandir o seu significado, se você fica a repetí-la repetí-la como papagaio que não sabe o que está dizendo. Você não sabe mais o que está dizendo. Você não sabe mais a quem está procurando. Você não tem mais a quem recorrer e contar e contar contar o que? Como estou só? 
Mas e aí todas estas frases à sua volta o que são, os incautos perguntam.

São palavras que sem o meu olhar ficam apenas a boiar na tela em que aparentemente me encontro e me pergunto então porque não comecei a escrever isso logo antes de expor assim um sentimento tão tristinho, tão coitadinho. 

A solidão é coitadinha porque ela sempre vem sem uma música bombando pra cima encapsulada no placebo de um prozac. A solidão não faz academia, não vai ao teatro.  Nem shows. Baladas. Parques. Praia.  

A solidão não anda por aí à toa. Ela fica parada como a palavra dentro do marcador amarelo fica ali para sempre parada sem ir pra frente ou pra trás. Por que alguém a destacou com a porra de um marcador que tem uma cor tão vibrante? 

Este texto está perdendo o sentido por causa do que? 

Da solidão.

Eu poderia escrever mais sobre a solidão mas a minha prefere que eu me abstenha de fumar mais a palavra coitadinha. Cheguei na guimba.


4 de maio de 2017

Achei sua linha, vovó


Lilian Lovisi

Corda a esticar,
me mostra o espelho de barbear,
corda
antes grossa
agora fina,
um lado puxa
outro também,
sou corda
prestes a arrebentar,
um dia
dois
acontecerá,
sai

entra U
aconteceu,
sai u
acontece.
Acontece
a corda que arrebentou
de tão fina o vento levou,
foi levando,
sou no instante que conto
linha de costura no ar,
soltei-me de um vestido
no varal do vigésimo primeiro andar
soltei-me ora,
não nasci para segurar bainhas,
abraçar botões,
levito por praias
provoco cócegas no ombro do salva-vidas
corto o sorvete na casquinha
da menina prestes a devorá-lo,
vento enrabichado pela menina
se infla
se incha de zanga
se faz soprar,
vento me leva
pra longe dela
do mar,
passo rente as asas do avião,
vento me leva mais
não dá pra pousar,
vento me leva mais
caramba e agora
me enrosco na bandeira americana na Lua,
sossega o vento
a lua desliga o interruptor,
cochilo nas estrelas da bandeira
ou do universo,
escuto minha avó,
cabecinha de vento,
caraca entendi o espelho,
Sempre fui
Cabecinha de vento.

selfie


Lilian Lovisi

deito os olhos entre os troncos
e fico preguiçosa,
a esperar a tarde
me beijar a retina.

tantas junções
tantas possibilidades de maravilhas
adormeço como gente
amanheço árvore.

20 de abril de 2017

sobre A sobre Mar



Lilian Lovisi



Há tanto mar em amar
como há todos os oceanos da Terra 
nos olhos de um único peixe 
Há tanto mar em amar
como na pedra do sal grosso
que benze a água que não vem do mar
Há tantas algas, baleias golfinhos, peixinhos, siris, cavalos marinhos em amar
velhas âncoras
Titanics 
surfistas bailarinos
Há tanto mar em amar
basta observar,
agua iodo e sal
circundam toda a palavra
crescem palmeiras em Amar
coqueiros caem sobre A
derrubam A
amar sem A
é   mar
é ilha pequena
a resistir a tsunamis localizados,
e aí
o próprio mar se encarrega de engolir a ilhota,
qualquer marinheiro sabe,
 o mar vive de amar.


27 de fevereiro de 2017



eu nao sei o que fazer com a necessidade premente de fazer não sei o que.
eu não sei o que fazer com esta parte mental emocional muito maior que a mental racional.
como é que consigo meditar?
consigo meditar?
as palavras rodopiam em torno da cabeça e meus olhos a enxergam mesmo estando fechados e lá dentro os neurônios digitam tudo em caixa alta que tornam a passar em volta dos meus olhos mesmo fechados.
palavras em volta da cabeça conseguem ser mais irritantes que moscas em volta do bolo.
o corpo todo é feito de tantas e tantas ideias e jeitos e formas e canções e telas e cores e árvores e plantas e flores e pássaros e nuvens, eu não sei o que é.
talvez seja vontade de achar um novo livro.
talvez seja todos os livros em gestação de 9 meses que tenho na barriga das rugas.


4 de janeiro de 2017

ESPERANÇA



Lilian Lovisi

O dia sempre amanhece diferente só porque é o primeiro dia do ano. E continua a amanhecer diferente quando é o segundo dia do ano e o terceiro dia do ano. Não reparou?

O sol nasceu onde ele se põe, as árvores de troncos cor de rosa abrigam passarinhos com quatro asas.
O céu está verde azul do mar.

No nordeste, a terra está totalmente irrigada, e homens e bichos pedem que pare de chover tão bonito.

São Paulo tem cheiro de maresia e nenhuma poluição.

Tudo porque estes são os primeiros dias do ano.

Há poucos instantes, Romeu apagou Julieta de sua lista de contatos e entrou no mar com Branca de Neve no Leblon.

Batman acabou de estender sua canga no Posto 9.

Jack Sparrow e seus 4 filhos assistem Mogli o menino Lobo em DVD pirata num apartamento do Tatuapé.

Sherlock Holmes ensina inglês básico numa escola da rede pública no Piauí.

João e Maria cantam sertanejo numa feira de animais que não foram abandonados.

Buffallo Bill termina seu expediente de salva vidas na piscina do Sesc Pompeia.

Dom Quixote se candidata a presidente do Brasil e do Flamengo ao mesmo tempo. Dulcinéia decide ser feliz com Sininho.

A alegria, ao invés de fazer a gente sorrir, faz a gente chorar.
E gargalhamos de todas as desgraças e preocupações e medos e paranoias e pânicos e depressões que nos assolaram nos últimos 8 anos de 2016.

26 de novembro de 2016

Las manas


Não faço a mínima ideia do que escrever tentando encaixar meus dedos gordos nesta telinha tao fitness, mas preciso deixar registrado aqui essa nossa viagem em busca da felicidade. 
Aquela minha amiga do Rio quem traduziu isso para mim numa.mensagem que passei pra ela. 
Caramba. Tem toda razão. Estamos nos dias em busca da felicidade. Sendo que se você encontrar a sua, eu encontrei a minha. 
Queria que você soubesse que por mais que nosso olhar sorria com paisagens suspeitas, e dentro da nossa alma que a tal felicidade mora. Só que é difícil até pra mim dar de cara assim com a dita cuja, eu que sou alegremente nova. Imagina pra você que passa por essa coisa chamada depressão que deixa a gente só com a parte da palavra. Drepres. O São ela nos tira. Entendo isto porque você me diz com.os.olhos, com os lábios que não se abrem em.linha reta indicando um sorriso.
Mas agora você foi sair pra bailar. Numa cidade bem longe da nossa, com.pessoas diferentes você foi sem.medo se ser feliz. Veja. Sem medo de ser feliz. Acho que é o começo para sua alma pular de dentro do seu corpinho lindo e gritar. Ela está escondida aqui. Vem.procurar aqui! 
Quero que você encontre a felicidade, amada. Se você tiver força e vontade de lutar por ela te digo. Você já encontrou e não se deu conta. Apenas isso.

16 de novembro de 2016

para minha linda de viver


Lilian Lovisi
PARA BIANCA

A vontade que tenho é fazer boca de jacaré. Botar você pra dentro de novo, engolir suas pernas longas e bonitas, seus braços, tronco, fígado com todas as raivas que você digeriu, estômago com os sapos que você engoliu, os olhos, queria mastigar os olhinhos bem mastigadinhos, pra dissolver na minha boca tudo aquilo de ruim que você viu e deixar que a saliva se encarregasse de dar sumiço em cada farelo de lembrança indevida, seus cabelos usaria como fio dental , depois de você ter usado aquele condicionador( que é pra descer macio), este nariz que olha para as estrelas eu deglutiria com melecas e tudo, as orelhas com o piercing desceriam inteiras, os pés, as unhas- todas as tatuagens de sobremesa- e depois de haver te engolido completamente eu ficaria parada que nem cobra, fazendo a digestão, páaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa três horas depois você estaria inteira, completa, na minha barriga, eu voltaria a ficar grávida de você e aí meu deus estaria a mágica, eu me chacoalharia entende, chacoalharia minha barriga de 18 anos, meus pensamentos, meus neurônios com sinapses tortas e direitas, tudo em mim chacoalharia com você lá dentro- e tomaria uns quinhentos passes, beberia chás sagrados, recitaria versos  de Adélia Prado,  poemas de Manoel de Barros, Fernando Pessoa, leria em voz alta todos os livros dos Irmãos Grimm,  O Nariz de Gogol “contaria gargalhando, veria só filmes com final feliz, “A Felicidade Não se Compra e Do Mundo Nada se Leva eu iria rever mais umas 20, não 30, não, 80 vezes  vai , e chacoalharia mais e mais, dançaria uma dança meia indígena de Mãe Terra e Mãe Superlua como um balé do grupo Corpo, e pediria a Deborah Colker pra me desenhar a coreografia, e dançaria, dançaria, na chuva, no sol, dentro do mar, com os pés na areia eu bailaria, tiraria siris para uma valsa- em seguida faria as malas e chamaria um anjo que estaria ali rondando a praia e diria, anjo, leve-me até o Himalaia, e lá conversaria com os monges, e memorizaria os mantras por eles ensinados e daria nas asas do anjo um pulinho até meu Egito Antigo e pediria para os deuses de todos os lados, de todas as eras,  incluindo meu divino Aton,  que te abençoasse ali dentro da minha barriga, que deixasse raios de luz atravessar o olho do meu umbigo e chegar a todos os seus chakras- depois voltaria para São Paulo, onde você nasceu e se criou, e correria no gramados da nossa casa junto com as formigas, os cachorros, eu na frente, eles atrás, numa corrida atrás do próprio rabo,  e cansada de tantas emoções esperaria chegar a noite e depois o dia- e só certa de que tudo você tinha assimilado e se conscientizado, eu te pariria, assim, na grama, ploft, como naquele filme do Glauber Rocha que seu pai adora, e você renasceria tão  linda quanto já é e mais luz do que já é, mais abençoada e infinita de compaixão - enquanto você fosse passando pela minha boca,( mudei de ideia, seria pela boca que eu iria te parir, não como naquele filme do Glauber), o meu hálito iria se perfumando cada vez mais, e  sairiam primeiro muitas flores da minha boca, depois todas as árvores maravilhosas do mundo-então seriam todas as árvores do mundo já que todas as árvores são maravilhosas mesmo que para o olhar de alguns não o sejam- em seguida sairiam de minha garganta  chumaços de nuvens de algodão junto com folhas do nosso caqui - e aí viria você, inteira, linda, sã e salva de todas as mazelas que por ventura, só por ventura,  te acometem de quando em vez.
Cinco segundos depois você olharia pra mim e perguntaria com a boca e estes olhos lindos:
mãe, tá fazendo o que aqui fora? corre mãe, estamos atrasadas, tá doida é?

e então eu saberia que a minha maternidade enfim, tinha a maior das maiores valia: o amor que cura.