27 de fevereiro de 2017



eu nao sei o que fazer com a necessidade premente de fazer não sei o que.
eu não sei o que fazer com esta parte mental emocional muito maior que a mental racional.
como é que consigo meditar?
consigo meditar?
as palavras rodopiam em torno da cabeça e meus olhos a enxergam mesmo estando fechados e lá dentro os neurônios digitam tudo em caixa alta que tornam a passar em volta dos meus olhos mesmo fechados.
palavras em volta da cabeça conseguem ser mais irritantes que moscas em volta do bolo.
o corpo todo é feito de tantas e tantas ideias e jeitos e formas e canções e telas e cores e árvores e plantas e flores e pássaros e nuvens, eu não sei o que é.
talvez seja vontade de achar um novo livro.
talvez seja todos os livros em gestação de 9 meses que tenho na barriga das rugas.


4 de janeiro de 2017

ESPERANÇA



Lilian Lovisi

O dia sempre amanhece diferente só porque é o primeiro dia do ano. E continua a amanhecer diferente quando é o segundo dia do ano e o terceiro dia do ano. Não reparou?

O sol nasceu onde ele se põe, as árvores de troncos cor de rosa abrigam passarinhos com quatro asas.
O céu está verde azul do mar.

No nordeste, a terra está totalmente irrigada, e homens e bichos pedem que pare de chover tão bonito.

São Paulo tem cheiro de maresia e nenhuma poluição.

Tudo porque estes são os primeiros dias do ano.

Há poucos instantes, Romeu apagou Julieta de sua lista de contatos e entrou no mar com Branca de Neve no Leblon.

Batman acabou de estender sua canga no Posto 9.

Jack Sparrow e seus 4 filhos assistem Mogli o menino Lobo em DVD pirata num apartamento do Tatuapé.

Sherlock Holmes ensina inglês básico numa escola da rede pública no Piauí.

João e Maria cantam sertanejo numa feira de animais que não foram abandonados.

Buffallo Bill termina seu expediente de salva vidas na piscina do Sesc Pompeia.

Dom Quixote se candidata a presidente do Brasil e do Flamengo ao mesmo tempo. Dulcinéia decide ser feliz com Sininho.

A alegria, ao invés de fazer a gente sorrir, faz a gente chorar.
E gargalhamos de todas as desgraças e preocupações e medos e paranoias e pânicos e depressões que nos assolaram nos últimos 8 anos de 2016.

26 de novembro de 2016

Las manas


Não faço a mínima ideia do que escrever tentando encaixar meus dedos gordos nesta telinha tao fitness, mas preciso deixar registrado aqui essa nossa viagem em busca da felicidade. 
Aquela minha amiga do Rio quem traduziu isso para mim numa.mensagem que passei pra ela. 
Caramba. Tem toda razão. Estamos nos dias em busca da felicidade. Sendo que se você encontrar a sua, eu encontrei a minha. 
Queria que você soubesse que por mais que nosso olhar sorria com paisagens suspeitas, e dentro da nossa alma que a tal felicidade mora. Só que é difícil até pra mim dar de cara assim com a dita cuja, eu que sou alegremente nova. Imagina pra você que passa por essa coisa chamada depressão que deixa a gente só com a parte da palavra. Drepres. O São ela nos tira. Entendo isto porque você me diz com.os.olhos, com os lábios que não se abrem em.linha reta indicando um sorriso.
Mas agora você foi sair pra bailar. Numa cidade bem longe da nossa, com.pessoas diferentes você foi sem.medo se ser feliz. Veja. Sem medo de ser feliz. Acho que é o começo para sua alma pular de dentro do seu corpinho lindo e gritar. Ela está escondida aqui. Vem.procurar aqui! 
Quero que você encontre a felicidade, amada. Se você tiver força e vontade de lutar por ela te digo. Você já encontrou e não se deu conta. Apenas isso.

16 de novembro de 2016

para minha linda de viver


Lilian Lovisi
PARA BIANCA

A vontade que tenho é fazer boca de jacaré. Botar você pra dentro de novo, engolir suas pernas longas e bonitas, seus braços, tronco, fígado com todas as raivas que você digeriu, estômago com os sapos que você engoliu, os olhos, queria mastigar os olhinhos bem mastigadinhos, pra dissolver na minha boca tudo aquilo de ruim que você viu e deixar que a saliva se encarregasse de dar sumiço em cada farelo de lembrança indevida, seus cabelos usaria como fio dental , depois de você ter usado aquele condicionador( que é pra descer macio), este nariz que olha para as estrelas eu deglutiria com melecas e tudo, as orelhas com o piercing desceriam inteiras, os pés, as unhas- todas as tatuagens de sobremesa- e depois de haver te engolido completamente eu ficaria parada que nem cobra, fazendo a digestão, páaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa três horas depois você estaria inteira, completa, na minha barriga, eu voltaria a ficar grávida de você e aí meu deus estaria a mágica, eu me chacoalharia entende, chacoalharia minha barriga de 18 anos, meus pensamentos, meus neurônios com sinapses tortas e direitas, tudo em mim chacoalharia com você lá dentro- e tomaria uns quinhentos passes, beberia chás sagrados, recitaria versos  de Adélia Prado,  poemas de Manoel de Barros, Fernando Pessoa, leria em voz alta todos os livros dos Irmãos Grimm,  O Nariz de Gogol “contaria gargalhando, veria só filmes com final feliz, “A Felicidade Não se Compra e Do Mundo Nada se Leva eu iria rever mais umas 20, não 30, não, 80 vezes  vai , e chacoalharia mais e mais, dançaria uma dança meia indígena de Mãe Terra e Mãe Superlua como um balé do grupo Corpo, e pediria a Deborah Colker pra me desenhar a coreografia, e dançaria, dançaria, na chuva, no sol, dentro do mar, com os pés na areia eu bailaria, tiraria siris para uma valsa- em seguida faria as malas e chamaria um anjo que estaria ali rondando a praia e diria, anjo, leve-me até o Himalaia, e lá conversaria com os monges, e memorizaria os mantras por eles ensinados e daria nas asas do anjo um pulinho até meu Egito Antigo e pediria para os deuses de todos os lados, de todas as eras,  incluindo meu divino Aton,  que te abençoasse ali dentro da minha barriga, que deixasse raios de luz atravessar o olho do meu umbigo e chegar a todos os seus chakras- depois voltaria para São Paulo, onde você nasceu e se criou, e correria no gramados da nossa casa junto com as formigas, os cachorros, eu na frente, eles atrás, numa corrida atrás do próprio rabo,  e cansada de tantas emoções esperaria chegar a noite e depois o dia- e só certa de que tudo você tinha assimilado e se conscientizado, eu te pariria, assim, na grama, ploft, como naquele filme do Glauber Rocha que seu pai adora, e você renasceria tão  linda quanto já é e mais luz do que já é, mais abençoada e infinita de compaixão - enquanto você fosse passando pela minha boca,( mudei de ideia, seria pela boca que eu iria te parir, não como naquele filme do Glauber), o meu hálito iria se perfumando cada vez mais, e  sairiam primeiro muitas flores da minha boca, depois todas as árvores maravilhosas do mundo-então seriam todas as árvores do mundo já que todas as árvores são maravilhosas mesmo que para o olhar de alguns não o sejam- em seguida sairiam de minha garganta  chumaços de nuvens de algodão junto com folhas do nosso caqui - e aí viria você, inteira, linda, sã e salva de todas as mazelas que por ventura, só por ventura,  te acometem de quando em vez.
Cinco segundos depois você olharia pra mim e perguntaria com a boca e estes olhos lindos:
mãe, tá fazendo o que aqui fora? corre mãe, estamos atrasadas, tá doida é?

e então eu saberia que a minha maternidade enfim, tinha a maior das maiores valia: o amor que cura.

30 de outubro de 2016

não adianta soprar




Lilian Lovisi

Feri meus olhos.
Feri meus olhos com o papel do jornal de antes de antes de antes de mil ontem.
Com o jornal de ontem.
Com o jornal de hoje.
Feri meus olhos ao ver as crianças, os adultos,  em Alepo.
Feri meus olhos ao ver imigrantes na mesma situação já faz tanto tempo.
Feri meus olhos com os animais abandonados.
Feri meus olhos olhando o mundo como está.
Não há colírio que dê jeito. Não adianta fechar os olhos.
Ao abrir as imagens passam como arame farpado e eles tornam a sangrar de lágrimas.

29 de outubro de 2016

esqueci



 Lilian Lovisi



Memória
No Mória, do you?
História
Corcel a pastar
Nos campos vazios
De Tróia.

Memória
A glória
Dos tempos 
Al com Zhei com Mer
Memória
Pra que?
lembrar
Da lambisgóia,
Uma pinóia,
Memória, responda, pra que?

Enumero,
catalogo
Memória da aurora
da sósia
Da felicidade  
 que passa
pela rua afora.


25 de outubro de 2016

Conversa curta entre doninha depressão e eu


Lilian Lovisi


-Cadê seu pai?

por aí

-cadê sua mãe?

por aí

-cadê seus avós?

não sei

-Tios? Tias? amigos na família?

nao sei

-se encostou aqui no meu portão como vira lata procurando abrigo

só porque sou grande não significa que não precise de alguém que me crie

-pois é, o problema é este, aqui em casa, você não pode se criar, sinto muito.
-Temos muitos cachorros, crianças, risos, abraços, verdes, flores, pássaros, me diga como você quer entrar em lugar tão cheio de luz?

isso não é problema, vou entrando assim devagarzinho e quando você vir, eu já me instalei, bem debaixo do seu tapete, que você tem vários, eu sei.

-Beleza querida, você é uma graça, juro que te deixaria de bom grado repousar por estas bandas, mas vou ser mais enérgica para que você entenda, a resposta é N, é A e O E e til Não.

Vou atravessar a rua e esperar então, tenho uma irmã minha aí dentro que passou bem debaixo das suas pernas e você não viu.

-Claro que vi. Olha ela lá na esquina com cara de quem não gostou do que encontrou.

E lá esquina surge a irmã da depressão, dona depressinhasao, com um olho roxo, com várias mordidas de cachorro no pé.

19 de outubro de 2016



Ouvir minha mãe me chamando pelo nome, isso é uma das coisas que eu mais sinto falta.
Não, isso não é uma das coisas que eu mais sinto falta.
Existem outras que listo abaixo, acima, dos lados, pelas pontas, ao redor, ao infinito e além.
Muito além do além seja ele o depois do Nirvana.

3 de agosto de 2016

sobre conjugar o verbo dizer


Lilian Lovisi

Eu não disse que eu vivo um absurdo muito grande, eu não disse que não consigo entender a lógica

do universo mas que estou tentando ferozmente, com todas as forças assimilar o que rola, mesmo

estes cometas que caem na minha cabeça constantemente, tento olhar pra eles com bons olhos e até

dialogar com alguns mencionando que a cauda está me queimando o braço ou a língua, mas os

cometas vejam vocês, não param para retrucar qualquer coisa, cometas não falam, diriam alguns, se

árvores falam por que cometam não o fariam? eu não disse que tá difícil de aguentar,

eu não disse que adoraria poder conversar bastante, falar, gritar, evocar todos os deuses e todas as

constelações de estrelas deusas para minha assembleia constituinte de vida, não disse, pois é, não

 disse tanta coisa, até aquela que nnao era coisa e depois virou coisa que virou outra coisa e que foi

virando virando e aqui estamos com tudo que eu não disse, mentira, claro que não é tudo nem um

 pouco do que eu não disse, se não disse, por que diria justo num momento que não quero dizer nada

além de nada que eu já não disse?

25 de julho de 2016

tudo se transforma, até mesmo a insônia.


lilian lovisi
o dia amanhece picado, lento, aos pedacinhos, como se eu o separasse em sílabas.
dia  A    Ma    Nhe   Ce  e eu aqui tentando assimilar a lição que a natureza coloca aos meus pés tão pequenos ou tão grandes, dependendo do ponto de vista de quem vê. Uma formiga diria gigante. Um gigante diria pequeno. A lua lá no céu segue minguando. Ela vai ficar nova novamente ( foi de propósito) , ela vai crescer novamente, ela vai ficar linda e cheia novamente.
Olho as estrelas que ainda estão no céu a me dizer, querida, você enxerga o nosso brilho mas porque você enxerga o brilho, não somos nós que estamos a brilhar. Estrelas do céu amigas queridas, a qual de vocês pertenço? em que lugar estará o planeta ou a nave que começou meu ciclo?
Uma delas comenta com a outra,  ouço bem:- será que ela já pensou em consultar um psiquiatra?