3 de agosto de 2016

sobre conjugar o verbo dizer


Lilian Lovisi

Eu não disse que eu vivo um absurdo muito grande, eu não disse que não consigo entender a lógica

do universo mas que estou tentando ferozmente, com todas as forças assimilar o que rola, mesmo

estes cometas que caem na minha cabeça constantemente, tento olhar pra eles com bons olhos e até

dialogar com alguns mencionando que a cauda está me queimando o braço ou a língua, mas os

cometas vejam vocês, não param para retrucar qualquer coisa, cometas não falam, diriam alguns, se

árvores falam por que cometam não o fariam? eu não disse que tá difícil de aguentar,

eu não disse que adoraria poder conversar bastante, falar, gritar, evocar todos os deuses e todas as

constelações de estrelas deusas para minha assembleia constituinte de vida, não disse, pois é, não

 disse tanta coisa, até aquela que nnao era coisa e depois virou coisa que virou outra coisa e que foi

virando virando e aqui estamos com tudo que eu não disse, mentira, claro que não é tudo nem um

 pouco do que eu não disse, se não disse, por que diria justo num momento que não quero dizer nada

além de nada que eu já não disse?

25 de julho de 2016

tudo se transforma, até mesmo a insônia.


lilian lovisi
o dia amanhece picado, lento, aos pedacinhos, como se eu o separasse em sílabas.
dia  A    Ma    Nhe   Ce  e eu aqui tentando assimilar a lição que a natureza coloca aos meus pés tão pequenos ou tão grandes, dependendo do ponto de vista de quem vê. Uma formiga diria gigante. Um gigante diria pequeno. A lua lá no céu segue minguando. Ela vai ficar nova novamente ( foi de propósito) , ela vai crescer novamente, ela vai ficar linda e cheia novamente.
Olho as estrelas que ainda estão no céu a me dizer, querida, você enxerga o nosso brilho mas porque você enxerga o brilho, não somos nós que estamos a brilhar. Estrelas do céu amigas queridas, a qual de vocês pertenço? em que lugar estará o planeta ou a nave que começou meu ciclo?
Uma delas comenta com a outra,  ouço bem:- será que ela já pensou em consultar um psiquiatra?

23 de julho de 2016

Neto para sempre Neto amado.




                             Numa manhã de um 20 de julho desapercebido, não fosse este evento. Que fazer neto querido?  os passarinhos de São Francisco vão ter com quem brincar.

19 de julho de 2016

sumiços




lilian lovisi

Caixas e Mais Caixas Guardam a Luz do Luar.
Caixas Altas e Caixas Baixas.
Fecho Todas as Caixas com Pregos, Cimento e Saliva.
Vaza não.
Apago todas as caixas com um simples delete. Está feito.
A Luz do Luar está presa à minha prosa.
Ou será à minha alma?
Seja lá o que for,
não aceito reclamações.

5 de julho de 2016

pé de caqui

Lilian Lovisi

Pés de caqui não falam, gritam.
Ele me chama no sopro da brisa. Quem há de escutar o sopro da brisa carregando algumas letras como L I L I A e N? quem? continuo meus afazeres que não são poucos dentro do mundo que construí no meu computador. Não são poucos levando em consideração que minuto sim e hora não, Noel precisa ir lá fora fazer xixi. Sem falar dos passarinhos que enrolam uma conversa danada comigo e eu tenho que tirar deles todos os dias a lição do dia.
Aí o pé de caqui fica lá esperando que eu escute que ele me chama e como já disse antes, desculpe a repetição, não ouço, ele manda folhinhas ao vento na minha direção. Santa paciência, juro, tem que ter, como é,  me explique, que folhinhas ao vento vão chegar até onde estou, no fundo da casa, do outro lado, mergulhada na tela azul do computador? estou nadando entre frases, o mundo erguido todo à volta, bombardeios também acontecem neste mundo, não nas proporções do daqui de fora, óbvio que não sou idiota nem fico defendendo religião, ponto de vista essas coisas bestas que no mundo de fora as pessoas fazem, então, como posso escutar o bendito do caqui me chamando?
Daí então ele parte para a baixaria. Grita, grita meu nome em vão. Eu demoro a perceber até o momento que Noel late late e briga com ele, discute dizendo que eu estou trabalhando em coisas, não vê? coisas. O pé de caqui não vê e continua a berrar.
Eu vou atrás de Noel que sai que nem um doido discutindo com ele e quando chego lá fora, estupefata, fico.
Mas por que é que você não me chamou antes pergunto para o pé de caqui e as cores estão todas lá a brincar com ele, a puxar os galhos dele.
Céus querendo mesmo fazer um trocadilho com o que vejo em cima do meu caqui, como podes ficar mais lindo do que já és? pergunto pra ele, e as cores gargalham e gargalham enquanto murmuram, ai se não fôssemos nós. E termina aqui com reticências escrita assim deste jeito.

23 de junho de 2016

Minha Petúnia

Lilian Lovisi

Os olhos dela eram cor de mel de laranjeira, uma cor nunca igual  a nenhum outro olho que eu tenha conhecido. Até hoje. Aqueles olhos de mel de laranjeira sorriam para o mundo o tempo todo. Fosse dia de sol ou tempestade. Naqueles olhos nunca vi sombra de nuvem. Só vi os olhos brilharem em toda minha entire life, como diriam os americanos, só coloco este comentário nada a ver aqui pra dar um tom mais informal se não começo a chorar de novo. Aqueles olhos transmitiam o mais puro amor universal, uma espécie em extinção no mundo daqui mas não no mundo destes olhos que eu via com os meus olhos de tom castanho normal demais, mas só os olhos, veja bem.
Passei 29 anos, 10 meses e 7 dias contemplando esta beleza de olhos.
Até que neste sétimo porra de dia, entra em cena uma mão com jaleco de médico, não lembro do resto, só mão e jaleco, não lembro do rosto, talvez fosse mesmo uma mão no ar. A mão abre um olho que acabara de fechar para sempre entende o que eu quero dizer pois não? então, a mão no ar  pinga o colírio no olho cor de mel de laranjeira. Eu pergunto, que isso? pra ver se está morta mesmo, a mão no ar diz, se não estiver vai sentir uma ardência muito forte e vai fazer uma expressão de dor no rosto.
Eu sem saber o que falar, estava meio pasma, pensei, tomara que esteja mesmo para não sentir tal dor e esperei. A mão esperou também. E não pingou mais nada. Só alguns minutos depois pegou uma caneta numa prancha e anotou a hora. E nunca mais na vida vi dois olhos no tom de mel de laranjeira cheio de amor universal que qualquer abelha como eu sabe apreciar. Nunca mais.

Pouco antes do antes virar agora.

Lilian Lovisi

Pouco antes do antes virar agora,
o mundo aconteceu.
O Big Bang explodiu nos olhos
Da menina
Fez Bummmm,
Que nem ritalina
Expandindo emes
e sinapses libertinas.

É déficit financeiro.
Público.
É déficit de atenção.
É déficit de vocação.
Nascemos, quiçá, do Big Bang
Jamais do Bang Bang,
(exceto talvez aquele do xerife ding ling riicochete).
Muito antes
Da vírgula- que inicia o livro dos prazeres de Clarice Lispector
Do mármore bruto- virar Davi de Michelangelo,
Muito antes
Do livro dos mortos dos antigos egípcios
Ou do manual dos vivos dos corruptos brasileiros,,,
Éramos humanos
no sentido físico, claro,
mas primordialmente abstrato
da palavra.
Elaborada,
Traduzida
Difundida
Compreendida
bem depois
que muito depois
acabou por se tornar agora.
Que não passa nunca.

28 de maio de 2016

ou ou ou ou

 
 
Ou estou de ponta cabeça ou o mundo se inverteu ou não tem mais ou.
Só podem ser ondas do mar. Mas me diz, como as ondas do mar não caem sobre a minha cabeça junto com todo o oceano, areia, peixes, biquínis  e sungas perdidas, tubarões, golfinhos, siris, cocos, xixis,  conchinhas e pérolas e todos os destroços de embarcações que afundaram há séculos inclusive mastros de bandeiras de navios portugueses, holandeses e piratas da perna pau. Não sei. Não me cheira bem porque não cheira a maresia. Mar tem cheiro de água com peixe de molho no  sal,  iodo e pitadas de maus olhados que as pessoas deixam no mar e ele, mar, recicla para bom olhado por isso gostamos tanto de olhar o mar. Mas diacho não caiu nem uma gota salgada em cima da minha testa até agora será que o bicho se congelou?
Congelaram-se os picolés que já estavam congelados antes de entrarem no isopor, as cervejas estupidamente congeladas só na garganta do vendedor de praia que tem que ganhar a vida assim como eu tenho que ganhar o mar?
É possível. É possível.
E as barracas, onde foram parar? Só ondas e mar? Se virar para o lado provavelmente verei as gaivotas que tanto apreciam os peixes a quererem mergulhar nos meus olhos azuis achando que estes são o mar. Se virar para o outro lado verei a Pedra da Gávea? Se virar de bruços conseguirei enxergar o resto da galáxia? Se soprar serei capaz  de  separar as 3 Marias? Pense garota, pense. Onde está você agora? Em que posição se encontra. Todo mundo tem que ter uma posição diante das lentes, por que você sempre faz questão de inverter a ordem das coisas?
É possível.
O que é possível, garota, pense.
Tudo.
A minha cabeça cansou-se de ocupar o andar de cima e, como aqueles pêndulos que um sobe e outro desce para o mundo poder se equilibrar, a minha cabeça desceu para os pés e os pés subiram para minha cabeça, do meu pescoço saem, além de um cordão com medalhinha de São Francisco,  dois pés com chulé.
A minha cabeça usa sandálias havaianas sem querer fazer merchandising da minha cabeça, não da sandália, e eu rolo macio por aí enxergando o mundo como ele às vezes é e às vezes não é. Se me deixam dormir sossegada na canga estendida  o mundo é assim , se me cutucam e me acordam ele não é assim. Ou pode ser o contrário.
lilian lovisi 

18 de maio de 2016

em ataque de bobeira ou de pânico.



Lilian Lovisi

Mãe a dor não passa.
Vai passar.
Mãe, a Dilma ganhou a eleição.
Vai passar.
Mãe, o Temer assumiu a presidência.
Vai passar.
Mãe, o milho aumentou.
Vai passar.
Mãe, o mundo está preto.
Vai passar.
Mãe, o mundo está rosa.
Vai passar.
Mãe o mundo não está.
Vai passar.
Mãe a dor não passa.
Vai passar.
Mãe, um terremoto atingiu todos os saltos altos.
Vai passar.
Mãe, a casa caiu.
Vai passar.
Mae, o trema caiu.
Vai passar.
Mãe, eu descobri que você é meu pai.
Vai passar.
Mãe a dor não passa.
Vai passar.
Mae, o Lagoa Barra passa aqui?
Vai passar
Mãe eu li sua mente.
Vai passar.
Mãe eu não li O Nariz de Gogol.
Vai passar.
Mãe a dor não passa.
Vai passar.
Mãe, eu leio lábios.
Vai passar.
Mãe você me passa o sal?
Vai passar.
Mãe, que horas são?
Vai passar.
Mãe?
Vai passar.
Eu não falei nada, mãe.
Vai passar.
Vai passar, mãe.
Vai passar.


6 de maio de 2016

verbo e verba

Lilian Lovisi

Eu queria ter superpoderes.
Eu tenho superpoderes.

Eu queria fazer minha filha feliz.
Eu faço minha filha feliz.

Eu queria ser uma ótima escritora.
Eu sou uma ótima escritora.

Como caminhar elegantemente entre três verbos?
Como pular da frase de cima para a de baixo sem deixar aparecer as calcinhas?

Tantas minhocas na cabeça e elas não sabem me responder a duas simples questões.


26 de abril de 2016

pra que esta raiva tão grande?


Lilian Lovisi

A boca do estômago gritou
O olho do cu arregalou
O braço da cadeira a esbofeteou.

Desperta, menina!
Levanta-te mulher.

O filme que passou na tua retina
vai ganhar reprise na garganta.

Terás tosse
tosse
mais tosse.

Refluxo
em intervalo comercial,
e no horário nobre
acudirá o jornal,
muitos,
aos montes,
de papel
onde cairão
vômitos jorrando em fluxos,
cada vez que balbuciares
entre choro, entre riso:
bom-dia, lobo mau. Não?
És lobo bom?
E num lampejo entenderás
o que qualquer vovozinha
há muito tempo apreendeu,
há de se ter medo,
não de lobo mau,
mas sim de lobo bom.