26 de novembro de 2016

Las manas


Não faço a mínima ideia do que escrever tentando encaixar meus dedos gordos nesta telinha tao fitness, mas preciso deixar registrado aqui essa nossa viagem em busca da felicidade. 
Aquela minha amiga do Rio quem traduziu isso para mim numa.mensagem que passei pra ela. 
Caramba. Tem toda razão. Estamos nos dias em busca da felicidade. Sendo que se você encontrar a sua, eu encontrei a minha. 
Queria que você soubesse que por mais que nosso olhar sorria com paisagens suspeitas, e dentro da nossa alma que a tal felicidade mora. Só que é difícil até pra mim dar de cara assim com a dita cuja, eu que sou alegremente nova. Imagina pra você que passa por essa coisa chamada depressão que deixa a gente só com a parte da palavra. Drepres. O São ela nos tira. Entendo isto porque você me diz com.os.olhos, com os lábios que não se abrem em.linha reta indicando um sorriso.
Mas agora você foi sair pra bailar. Numa cidade bem longe da nossa, com.pessoas diferentes você foi sem.medo se ser feliz. Veja. Sem medo de ser feliz. Acho que é o começo para sua alma pular de dentro do seu corpinho lindo e gritar. Ela está escondida aqui. Vem.procurar aqui! 
Quero que você encontre a felicidade, amada. Se você tiver força e vontade de lutar por ela te digo. Você já encontrou e não se deu conta. Apenas isso.

16 de novembro de 2016

para minha linda de viver


Lilian Lovisi
PARA BIANCA

A vontade que tenho é fazer boca de jacaré. Botar você pra dentro de novo, engolir suas pernas longas e bonitas, seus braços, tronco, fígado com todas as raivas que você digeriu, estômago com os sapos que você engoliu, os olhos, queria mastigar os olhinhos bem mastigadinhos, pra dissolver na minha boca tudo aquilo de ruim que você viu e deixar que a saliva se encarregasse de dar sumiço em cada farelo de lembrança indevida, seus cabelos usaria como fio dental , depois de você ter usado aquele condicionador( que é pra descer macio), este nariz que olha para as estrelas eu deglutiria com melecas e tudo, as orelhas com o piercing desceriam inteiras, os pés, as unhas- todas as tatuagens de sobremesa- e depois de haver te engolido completamente eu ficaria parada que nem cobra, fazendo a digestão, páaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaaa três horas depois você estaria inteira, completa, na minha barriga, eu voltaria a ficar grávida de você e aí meu deus estaria a mágica, eu me chacoalharia entende, chacoalharia minha barriga de 18 anos, meus pensamentos, meus neurônios com sinapses tortas e direitas, tudo em mim chacoalharia com você lá dentro- e tomaria uns quinhentos passes, beberia chás sagrados, recitaria versos  de Adélia Prado,  poemas de Manoel de Barros, Fernando Pessoa, leria em voz alta todos os livros dos Irmãos Grimm,  O Nariz de Gogol “contaria gargalhando, veria só filmes com final feliz, “A Felicidade Não se Compra e Do Mundo Nada se Leva eu iria rever mais umas 20, não 30, não, 80 vezes  vai , e chacoalharia mais e mais, dançaria uma dança meia indígena de Mãe Terra e Mãe Superlua como um balé do grupo Corpo, e pediria a Deborah Colker pra me desenhar a coreografia, e dançaria, dançaria, na chuva, no sol, dentro do mar, com os pés na areia eu bailaria, tiraria siris para uma valsa- em seguida faria as malas e chamaria um anjo que estaria ali rondando a praia e diria, anjo, leve-me até o Himalaia, e lá conversaria com os monges, e memorizaria os mantras por eles ensinados e daria nas asas do anjo um pulinho até meu Egito Antigo e pediria para os deuses de todos os lados, de todas as eras,  incluindo meu divino Aton,  que te abençoasse ali dentro da minha barriga, que deixasse raios de luz atravessar o olho do meu umbigo e chegar a todos os seus chakras- depois voltaria para São Paulo, onde você nasceu e se criou, e correria no gramados da nossa casa junto com as formigas, os cachorros, eu na frente, eles atrás, numa corrida atrás do próprio rabo,  e cansada de tantas emoções esperaria chegar a noite e depois o dia- e só certa de que tudo você tinha assimilado e se conscientizado, eu te pariria, assim, na grama, ploft, como naquele filme do Glauber Rocha que seu pai adora, e você renasceria tão  linda quanto já é e mais luz do que já é, mais abençoada e infinita de compaixão - enquanto você fosse passando pela minha boca,( mudei de ideia, seria pela boca que eu iria te parir, não como naquele filme do Glauber), o meu hálito iria se perfumando cada vez mais, e  sairiam primeiro muitas flores da minha boca, depois todas as árvores maravilhosas do mundo-então seriam todas as árvores do mundo já que todas as árvores são maravilhosas mesmo que para o olhar de alguns não o sejam- em seguida sairiam de minha garganta  chumaços de nuvens de algodão junto com folhas do nosso caqui - e aí viria você, inteira, linda, sã e salva de todas as mazelas que por ventura, só por ventura,  te acometem de quando em vez.
Cinco segundos depois você olharia pra mim e perguntaria com a boca e estes olhos lindos:
mãe, tá fazendo o que aqui fora? corre mãe, estamos atrasadas, tá doida é?

e então eu saberia que a minha maternidade enfim, tinha a maior das maiores valia: o amor que cura.

30 de outubro de 2016

não adianta soprar




Lilian Lovisi

Feri meus olhos.
Feri meus olhos com o papel do jornal de antes de antes de antes de mil ontem.
Com o jornal de ontem.
Com o jornal de hoje.
Feri meus olhos ao ver as crianças, os adultos,  em Alepo.
Feri meus olhos ao ver imigrantes na mesma situação já faz tanto tempo.
Feri meus olhos com os animais abandonados.
Feri meus olhos olhando o mundo como está.
Não há colírio que dê jeito. Não adianta fechar os olhos.
Ao abrir as imagens passam como arame farpado e eles tornam a sangrar de lágrimas.

29 de outubro de 2016

esqueci



 Lilian Lovisi



Memória
No Mória, do you?
História
Corcel a pastar
Nos campos vazios
De Tróia.

Memória
A glória
Dos tempos 
Al com Zhei com Mer
Memória
Pra que?
lembrar
Da lambisgóia,
Uma pinóia,
Memória, responda, pra que?

Enumero,
catalogo
Memória da aurora
da sósia
Da felicidade  
 que passa
pela rua afora.


25 de outubro de 2016

Conversa curta entre doninha depressão e eu


Lilian Lovisi


-Cadê seu pai?

por aí

-cadê sua mãe?

por aí

-cadê seus avós?

não sei

-Tios? Tias? amigos na família?

nao sei

-se encostou aqui no meu portão como vira lata procurando abrigo

só porque sou grande não significa que não precise de alguém que me crie

-pois é, o problema é este, aqui em casa, você não pode se criar, sinto muito.
-Temos muitos cachorros, crianças, risos, abraços, verdes, flores, pássaros, me diga como você quer entrar em lugar tão cheio de luz?

isso não é problema, vou entrando assim devagarzinho e quando você vir, eu já me instalei, bem debaixo do seu tapete, que você tem vários, eu sei.

-Beleza querida, você é uma graça, juro que te deixaria de bom grado repousar por estas bandas, mas vou ser mais enérgica para que você entenda, a resposta é N, é A e O E e til Não.

Vou atravessar a rua e esperar então, tenho uma irmã minha aí dentro que passou bem debaixo das suas pernas e você não viu.

-Claro que vi. Olha ela lá na esquina com cara de quem não gostou do que encontrou.

E lá esquina surge a irmã da depressão, dona depressinhasao, com um olho roxo, com várias mordidas de cachorro no pé.

19 de outubro de 2016



Ouvir minha mãe me chamando pelo nome, isso é uma das coisas que eu mais sinto falta.
Não, isso não é uma das coisas que eu mais sinto falta.
Existem outras que listo abaixo, acima, dos lados, pelas pontas, ao redor, ao infinito e além.
Muito além do além seja ele o depois do Nirvana.

3 de agosto de 2016

sobre conjugar o verbo dizer


Lilian Lovisi

Eu não disse que eu vivo um absurdo muito grande, eu não disse que não consigo entender a lógica

do universo mas que estou tentando ferozmente, com todas as forças assimilar o que rola, mesmo

estes cometas que caem na minha cabeça constantemente, tento olhar pra eles com bons olhos e até

dialogar com alguns mencionando que a cauda está me queimando o braço ou a língua, mas os

cometas vejam vocês, não param para retrucar qualquer coisa, cometas não falam, diriam alguns, se

árvores falam por que cometam não o fariam? eu não disse que tá difícil de aguentar,

eu não disse que adoraria poder conversar bastante, falar, gritar, evocar todos os deuses e todas as

constelações de estrelas deusas para minha assembleia constituinte de vida, não disse, pois é, não

 disse tanta coisa, até aquela que nnao era coisa e depois virou coisa que virou outra coisa e que foi

virando virando e aqui estamos com tudo que eu não disse, mentira, claro que não é tudo nem um

 pouco do que eu não disse, se não disse, por que diria justo num momento que não quero dizer nada

além de nada que eu já não disse?

25 de julho de 2016

tudo se transforma, até mesmo a insônia.


lilian lovisi
o dia amanhece picado, lento, aos pedacinhos, como se eu o separasse em sílabas.
dia  A    Ma    Nhe   Ce  e eu aqui tentando assimilar a lição que a natureza coloca aos meus pés tão pequenos ou tão grandes, dependendo do ponto de vista de quem vê. Uma formiga diria gigante. Um gigante diria pequeno. A lua lá no céu segue minguando. Ela vai ficar nova novamente ( foi de propósito) , ela vai crescer novamente, ela vai ficar linda e cheia novamente.
Olho as estrelas que ainda estão no céu a me dizer, querida, você enxerga o nosso brilho mas porque você enxerga o brilho, não somos nós que estamos a brilhar. Estrelas do céu amigas queridas, a qual de vocês pertenço? em que lugar estará o planeta ou a nave que começou meu ciclo?
Uma delas comenta com a outra,  ouço bem:- será que ela já pensou em consultar um psiquiatra?

23 de julho de 2016

Neto para sempre Neto amado.




                             Numa manhã de um 20 de julho desapercebido, não fosse este evento. Que fazer neto querido?  os passarinhos de São Francisco vão ter com quem brincar.

19 de julho de 2016

sumiços




lilian lovisi

Caixas e Mais Caixas Guardam a Luz do Luar.
Caixas Altas e Caixas Baixas.
Fecho Todas as Caixas com Pregos, Cimento e Saliva.
Vaza não.
Apago todas as caixas com um simples delete. Está feito.
A Luz do Luar está presa à minha prosa.
Ou será à minha alma?
Seja lá o que for,
não aceito reclamações.

5 de julho de 2016

pé de caqui

Lilian Lovisi

Pés de caqui não falam, gritam.
Ele me chama no sopro da brisa. Quem há de escutar o sopro da brisa carregando algumas letras como L I L I A e N? quem? continuo meus afazeres que não são poucos dentro do mundo que construí no meu computador. Não são poucos levando em consideração que minuto sim e hora não, Noel precisa ir lá fora fazer xixi. Sem falar dos passarinhos que enrolam uma conversa danada comigo e eu tenho que tirar deles todos os dias a lição do dia.
Aí o pé de caqui fica lá esperando que eu escute que ele me chama e como já disse antes, desculpe a repetição, não ouço, ele manda folhinhas ao vento na minha direção. Santa paciência, juro, tem que ter, como é,  me explique, que folhinhas ao vento vão chegar até onde estou, no fundo da casa, do outro lado, mergulhada na tela azul do computador? estou nadando entre frases, o mundo erguido todo à volta, bombardeios também acontecem neste mundo, não nas proporções do daqui de fora, óbvio que não sou idiota nem fico defendendo religião, ponto de vista essas coisas bestas que no mundo de fora as pessoas fazem, então, como posso escutar o bendito do caqui me chamando?
Daí então ele parte para a baixaria. Grita, grita meu nome em vão. Eu demoro a perceber até o momento que Noel late late e briga com ele, discute dizendo que eu estou trabalhando em coisas, não vê? coisas. O pé de caqui não vê e continua a berrar.
Eu vou atrás de Noel que sai que nem um doido discutindo com ele e quando chego lá fora, estupefata, fico.
Mas por que é que você não me chamou antes pergunto para o pé de caqui e as cores estão todas lá a brincar com ele, a puxar os galhos dele.
Céus querendo mesmo fazer um trocadilho com o que vejo em cima do meu caqui, como podes ficar mais lindo do que já és? pergunto pra ele, e as cores gargalham e gargalham enquanto murmuram, ai se não fôssemos nós. E termina aqui com reticências escrita assim deste jeito.

23 de junho de 2016

Minha Petúnia

Lilian Lovisi

Os olhos dela eram cor de mel de laranjeira, uma cor nunca igual  a nenhum outro olho que eu tenha conhecido. Até hoje. Aqueles olhos de mel de laranjeira sorriam para o mundo o tempo todo. Fosse dia de sol ou tempestade. Naqueles olhos nunca vi sombra de nuvem. Só vi os olhos brilharem em toda minha entire life, como diriam os americanos, só coloco este comentário nada a ver aqui pra dar um tom mais informal se não começo a chorar de novo. Aqueles olhos transmitiam o mais puro amor universal, uma espécie em extinção no mundo daqui mas não no mundo destes olhos que eu via com os meus olhos de tom castanho normal demais, mas só os olhos, veja bem.
Passei 29 anos, 10 meses e 7 dias contemplando esta beleza de olhos.
Até que neste sétimo porra de dia, entra em cena uma mão com jaleco de médico, não lembro do resto, só mão e jaleco, não lembro do rosto, talvez fosse mesmo uma mão no ar. A mão abre um olho que acabara de fechar para sempre entende o que eu quero dizer pois não? então, a mão no ar  pinga o colírio no olho cor de mel de laranjeira. Eu pergunto, que isso? pra ver se está morta mesmo, a mão no ar diz, se não estiver vai sentir uma ardência muito forte e vai fazer uma expressão de dor no rosto.
Eu sem saber o que falar, estava meio pasma, pensei, tomara que esteja mesmo para não sentir tal dor e esperei. A mão esperou também. E não pingou mais nada. Só alguns minutos depois pegou uma caneta numa prancha e anotou a hora. E nunca mais na vida vi dois olhos no tom de mel de laranjeira cheio de amor universal que qualquer abelha como eu sabe apreciar. Nunca mais.